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Tito, o delegado

Tito sempre foi delegado de polícia e morou em cidade do interior. Muita gente acha que é mel na chupeta, mas só ele e Deus sabem das adversidades que o pobre já enfrentou.

Já colocou muito bandido perigoso na cadeia. Vocês lembram-se do Kid Malandro, famoso adulterador de coleira canina. Pois é! Foi o Tito, ou melhor, o Dr. Tito quem o prendeu.

Kid Malandro falsificava as coleiras de pobres animais indefesos, tomava seus lugares junto à família e, dentro da casa, roubava tudo dos humanos. Depois, ainda colocava a culpa na vítima, que antes era hipnotizada e não se lembrava de nada. Sem demora, o delegado Tito esclareceu toda a tramoia e prendeu o delinquente.

Contudo, hoje, Tito resolveu mudar-se para a capital. Ele estava cansado de ficar sozinho em sua casa no interior. Já está aposentado e queria aproveitar mais a vida urbana. Ir ao cinema, teatro, visitar museus, viajar, etc.  Ao escolher onde morar, optou por um prédio com área de lazer e veio residir em nosso condomínio.

No começo, o Tito apenas cuidava de seus humanos. Com o passar do tempo, depois de ter ido a dezenas de filmes, cinema, ter viajado a diversos lugares do mundo, não conseguia relaxar com a vida de aposentado e acabou aceitando o cargo de delegado do condomínio, uma espécie de síndico, mas com poderes mais amplos.

Na verdade, ele se sente a própria lei. Todo tipo de controvérsia, confusão, furdunço, bafafá que acontece, na mesma hora, eis quem surge, o Tito e resolve imediatamente o imbróglio, sem titubear.

Certa vez, estava tranquilo em casa, quando toca o telefone. Atendo e eram daqueles trotes em que a pessoa diz que está com seu parente sequestrado.

Trimm….

– Alô! Quem está falando?

– Alô! Você tem algum parente que anda de moto? Perguntou o bandido?

– Tenho, o meu primo Guto!

– Não chame a polícia! Estamos com seu primo Guto em nosso poder.

– Você terá que depositar 10.000 contos de cães (moeda canina) para soltarmos o rapaz com vida.

Na mesma hora, aquele capetinha que fica do lado da nossa orelha esquerda despertou e disse:

– Fred é a sua chance de se livrar do Guto!

Parece que o anjinho bom tinha saído, porque não ouvi ele dizer nada.

Então, indo pelo conselho do capetinha, respondi:

– Pode fazer o que vocês quiserem, eu não nem aí. E também não tenho 10.000 contos de cães. Se virem!!!

– Nisso, até o bandido ficou bravo. Seu desalmado, não vai salvar a vida do seu primo?

A conversa estava sendo ouvida pela linguaruda da Angélica que, na mesma hora gritou o Tito.

– Delegado Tito, socorro!!! O Guto foi sequestrado! Vão mata-lo.

Coincidentemente, Tito estava cochilando, coisa rara de acontecer. Levou um susto com o grito da fofoqueira, deu um pulo e quase bateu a cabeça no teto.

– Que foi Angélica? Você ainda vai me matar. Resmungou o policial.

– Delegado, o Guto foi levado por bandidos que exigem o resgate de 10.000 contos de cães.  Berrou a calopsita.

–  Como você soube disso Angélica? O Fred está negociando com os sequestradores pelo telefone.

Quando Tito e Angélica chegaram ao meu apartamento, os sequestradores já haviam baixado o valor para cem gramas de filé bem passado e meio biscoito.

Ainda assim, bravejou o Tito:

– Fred, não negocie com bandidos, deixe comigo!

E me tomou o telefone.

Depois de meia hora de negociação entre Tito e os delinquentes, o resgate havia subido novamente para 20.000 contos de cães. A discussão estava acalorada e delegado já estava com a pressão arterial alta e suando bicas de tanta raiva.

De repente, quem entra no apartamento?

O Guto, tranquilo e sereno.

Guto chama o Tito e a Angélica para saber o que estava acontecendo, mas eles nem notam a presença do galã.

Eu, a essa altura, já estava é fazendo a minha sesta, pois ninguém é de ferro.

Somente após 15 minutos, Tito e Angélica perceberam que o Guto estava ali observando os dois.

–  Guto meu rapaz, você está bem? Perguntou Tito e retornou às negociações.

Angélica se jogou para cima do Guto, parece que para aproveitar e dar umas beijocas no sujeito.

Num estalo, Tito percebeu o que estava fazendo e bateu o telefone na cara do criminoso.

O delegado notou que, na verdade, tratava-se de um trote e que o Guto nunca foi sequestrado.

Olhou para os lados e não sabia o que dizer. Virou para o Guto e disparou:

– Viu, espantei os bandidos. Eles te sequestram e você nem percebeu. Saiu ileso!

Angélica e eu acreditamos na história do Tito, que mantém até hoje sua pose de intocável e o Guto não quis queimar seu filme, deixou  como estava, todo mundo acreditando que o Tito é o melhor delegado do mundo…

O que vale é que o condomínio mantém a ordem e a paz, graças ao Tito.

 

 

 

 

Tia Lili

Estava eu lá fazendo minha sesta, quando meu smartphone toca – era a tia Lili que mora no interior.

Tia Lili é uma grande pessoa, digo, cadela. Com fibra, guerreira. Toma conta, sozinha, de cinco humanos que são “duros na queda” e ainda aguenta o tal do Guto, de quem eu vou falar depois.

Tia Lili era filha única da vovó Tatá, uma incansável passeadora, vivia na rua.

 Tia Lili ainda era um filhote, quando sua mãe resolveu dar no pé, deixando a pobre sozinha para cuidar de cinco humanos.

Há muito tempo a vovó Tatá já pensava num meio de se mudar definitivamente para as ruas. Ela gostava de conhecer novos animais, lugares e comidas. Por isso, sonhava em viver livre.

Certa vez quando um dos desatentos humanos deixou o cadeado do portão aberto. Foi o bastante para a vovó Tatá sair correndo como um furacão. Nunca mais se ouviu notícia da velhinha. Dizem que ele vive viajando, tendo experiências diferentes.

Resultado: a titia Lili, ainda uma criança teve que dar conta de tudo sozinha. Não foi fácil. Todos exigem muito dela. Mas Deus ajuda e, hoje, apesar de eu não concordar, ela fala que o Guto, o meu primo bobão, veio para trazer alegria à casa.

Chegou há pouco mais de três anos, dado de presente pela madrinha da humaninha.

Desde pequeno ele é um trapalhão, vivia correndo pela casa e derrubando a frágil Lili. Quantas vezes, ele surrupiava a comida da pobrezinha. Quando a tia descuidava, o bandido engolia de uma vez toda a sua refeição, deixando a pobre faminta.

E não é só. Ele sempre derrubava sua vasilha de água, obrigando a pobrezinha a tomar água da piscina. Quando eles vão sair de carro, sai o Guto em disparada, dá um rodopio na tia e chega primeiro no banco da frente, às vezes, deixando a idosa para trás.

Dizem os humanos dali, com a concordância da tia Lili, que ele é o guardião da casa. Bahhh!!! Tem gente que acredita em qualquer mentira deslavada!!!

Isto porque, certo dia, estava ele lá, o folgado, o mequetrefe, mariola, biltre deitado.

Sabe aquele ponto da casa, onde podemos ver tudo que acontece, você tem visão de todos os quartos, banheiros, cozinha e principalmente da porta de entrada, onde, geralmente, todo cão eficiente tem que atuar.

Pois é, o folgado do Guto, mal saiu das fraldas, achou que era gente e quis assumir o lugar da tia Lili e sua primeira providência foi roubar-lhe o ponto de guarda.

Tia Lili não teve alternativa, teve que deixar o folgado lá. Só que o danado não cumpre a obrigação de olhar a casa, deixa tudo de esquisito acontecer.

Estava o boboca lá no ponto de guarda, fingindo que estava alerta. Aí, começou uma movimentação esquisita na vizinhança. Tia Lili havia saído no momento.

Bom, continuando, estava o trouxa lá parado, quando de repente vê um vulto passar na rua, carregando uma televisão. Guto dá um pulo e sai correndo e latindo para a sacada do quarto da humaninha. De lá, ele vê o bandido carregando caixa com joias e computador .

O peludo quase perdeu a voz de tanto latir. A humanada, já conhecedora da fama de escandaloso do Guto, nada fez. Mas, ele continuou alerta  e latindo, o que, talvez, afastou o meliante da casa.

Mais tarde, quando noticiou no rádio que a casa vizinha havia sido roubada, os humanos da tia Lili, com muito esforço, reconheceram a rua e perceberam que a barulhada do Guto tinha uma razão, ele estava espantando o ladrão.

Quando a tia Lili soube da notícia, quase se derreteu de tanto elogiar aquele herói do Paraguai. Dali em diante, ele passou a ser o chefe da segurança, com toda pompa e circunstância. Ganhou até a medalha de “Cão de Mérito”.

Huuummm! Na minha opinião, não fez mais do que obrigação, mas…

Tia Lili falou ao herói de plantão:

– Guto, você é um excelente cão de guarda, nem os ladrões mais espertos e audaciosos são páreos para você!

Mãe é mãe, né?

Bom, retornando ao telefonema da tia Lili, ela estava avisando que o primo Guto chegaria no dia seguinte para um passeio na cidade grande e me perguntou se ele poderia ficar na minha casa.

Não poderia negar um pedido da minha querida tia Lili…

– Ah meu Deus!!!  Vou ter que pajear caipira. O jeito é usar a minha nobreza para ensinar tudo ao coitado.  Garanto que não sabe usar a escada rolante, nunca ouviu falar de elevador e, sequer, tem smartphone, pensei com meus botões.

Fazer o que, né?!!! “Vamo sofrê”…