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Crie a fama e deite na cama

Mal chegou a linguaruda no prédio, sua fama correu longe. Até vizinhos de outro bairro já sabiam que havia se mudado para o condomínio uma tagarela desembestada.

E não era só fama, a dita-cuja falava pelos cotovelos. Dizia que a Charlote era muito metida à cantora, que o Romeu era um bobão de ficar com uma falsa soprano, que ele devia partir para outra.

Até no Guto, que toda espécime do gênero feminino adorava, ela “deitou a lenha”. Falou que ele era um caipira metido a galã. Disse que o Guto nem era tão bonito assim, que a cachorrada era cega por achar ele lindo. Chegou a repetir que o Guto era, no máximo, “um feio arrumadinho”.

Neste ponto, confesso que gostei de sua fala… kkkkkk

Sobre mim, pobrezinho, ela teve a coragem de dizer que sou medroso, baixinho e burraldo. Afirmou para a Charlote que eu “me achava”, mas, na verdade, não passava de um “pé rapado”.

Sujeitinha fingida! Perto de mim, é só elogios! Por trás, tanto faz…

Mas, nem tudo está perdido!

Tá certo, a fulana é cheia de defeitos, mas, noutro dia, demonstrou que tem um projeto de coração naquele peito! Estava ela na janela, espionando a vizinhança para editar seu noticiário falacioso, quando viu que um pardalzinho caiu de seu ninho.

A mamãe-pardal, como não tinha nenhum preparo, instrução, como nós animais de estimação, não socorreu sua prole. Ao contrário, foi embora, deixando o pobrezinho jogado à própria sorte.

Como todo mundo sabe, a cidade é um mar de perigos, principalmente para filhotes.

A Angélica, como estava com a anteninha ligada nos acontecimentos, viu a cena e não titubeou, foi logo ao encontro do pequeno órfão, que na verdade era uma órfã.

Não é que a danada acolheu a criança e a trouxe para sua casa, passando a assumir o papel da mãe desapegada.

Na mesma hora, deu o nome de Angelita à pequena e passou a cuidar dela como filha.

Buscava comida para dar no bico da passarinha. Limpava suas penas. Fez um ninho só para que a bichinha se aconchegasse. Chegou até a pedir à Charlote que cantasse uma canção de ninar para o bebê.

Veja, quem falava que a Charlote cantava muito mal. Vai entender…

A partir deste momento, passei a considerar mais a Angélica, pois vi que ela não é de todo mal. Claro, tem muitos defeitos. Falar da vida alheia, como ela faz, é imperdoável, mas talvez ainda haja salvação àquela alma, que acolheu a linda Angelita…

Acho que somos uma mistura de bem e do mal, cabe a nós dosar qual deles vai prevalecer em nossos corações.

Desta vez, a Angélica merece toda nossa admiração!

 

 

Angélica, a calopsita.

Na região da Savassi, em Belo Horizonte, existe o Centro de Estudos de Pássaros. Lá, vivem calopsitas e periquitos que estudam a vida humana. 

O propósito é desvendar os costumes, a capacidade cognitiva e a bondade dos homens.

Dividir o mesmo espaço urbano com o homo sapiens foi a forma que os pássaros arrumaram para alcançar seu objetivo.

Conviver com humanos, observando, analisando e, até mesmo, experimentando seu jeito de lidar com as adversidades.

Dividem o mesmo ambiente. Claro, os humanos são cercados por paredes e portas trancadas, pois ainda não aprenderam a respeitar o espaço do próximo. Mas, os pássaros não. Eles vivem soltos pela casa para interagirem melhor entre si e também com os humanos. 

O projeto iniciou-se em 2003, pela professora, mestre e doutora em antropologia, Dra. Pérola, que dirige o Centro de Pesquisas. Em seguida, chegou o Dr. Babá, sério estudioso da raça humana. Seu maior desafio é descobrir o que leva o homem a condenar os pássaros à prisão perpétua, sem terem cometido crime algum.

É um grande desafio, pois, segundo o relato do cientista, a cada momento, o homem apresenta uma justificativa mais incompreensível que a outra. Ora é porque os pássaros cantam, ora é porque são bonitos, ora é porque são raros. Vê se pode?!!!

Segundo esses estudiosos, nunca foi preso um pássaro por ser criminoso e sim porque apresenta uma qualidade, é bom, é bonito, é forte ou é raro. 

Seres esquisitos este tal de homem, né?

Mas a vida é boa! Comida farta, amor e carinho dos humanos que lá também habitam.

Tudo corria bem. Dra. Pérola sempre em dia com os trabalhos e séria em suas atribuições, até quando, numa bela manhã, chegou a estagiária Angélica. 

A bichinha era totalmente desvairada! Sem noção.  

Vivia roubando comida dos humanos. Quando recusavam seu pedido, ela partia para cima do desavisado, sem dó, nem piedade… Bicando até sua língua.

Com relação ao trabalho, era o que se chama “nó cego”. Não queria saber de nada. Nenhuma das atividades que lhe foram passadas, foram cumpridas.

Relatórios, questionários, experimentos. Nada era do seu interesse. Só queria saber mesmo de fofocar. A Angélica era pássaro, mas tinha língua de réptil, gigante…

Tanto fez até provocar uma discussão entre a Dra. Pérola e o Dr. Babá, chegando a ponto de um não conversar com o outro.

A Angélica teve o desplante de falar com a Dra. Pérola que o Dr. Babá falou que ele era o mais trabalhador do Instituto, que a Dra. Pérola só ficava ali para desfilar para lá e para cá…

Pura mentira! Na minha vida de cachorro, jamais vi uma passarinha tão dedicada ao trabalho e aos estudos como a Dra. Pérola. Fofoca da brava!

Os dois pássaros, inteligentes e perspicazes, como são, logo perceberam que a faladeira da Angélica estava ali somente para por fogo no circo, sem colaborar com nada.

Resultado. A Angélica foi para o olho da rua.

A minha humana-mor, que era irmã da humana-mor do Centro de Pesquisa, comoveu-se com a situação da coitada.

Para os humanos, os pássaros não combinavam entre si e estavam depenando uns aos outros.

Então, ela sugeriu que a penosa viesse para o condomínio, para morar no apartamento 202.

Eu fiquei encucado, pois a Dra. Pérola já havia me falado dos problemas que estava enfrentando com a presença da futriqueira no Centro de Estudos, mas…

Chegou a fuxiqueira!

A primeira coisa que ela fez foi reclamar dos vizinhos, dizendo:

– O prédio é bom, mas tem muito cachorro, gatos e poucos pássaros! Ainda bem que eu cheguei para colocar ordem neste pardieiro!

– Vixi!!! Já senti o drama! Vai dar ruim! Pensei eu com meus carrapatinhos…