Início

Calendário, segundo o Fred

Estava eu lá, tirando minha sonequinha, para variar, quando ouço chamar meu nome.

Uma voz doce, suave e carinhosa…

– Freeeeed!

Era a bela Charlote, a gata mais gata do condomínio!

Quando cheguei à janela, lá estava a maravilhosa, estilosa e deslumbrante. Mas, também, estava o chato do Romeu que não larga do pé dela.

– Fred, disse a felina, no sábado, haverá outro festival de música, tenho que fazer a inscrição, você sabe que dia é hoje?

– Oh Charlote, hoje é domingo.

– Como você sabe, Fred? Você está sem celular, sem relógio, sem calendário.

– Charlote, nós cães, como seres de maior inteligência entre as espécies, temos a percepção do tempo como ninguém. Por exemplo, hoje é domingo. E vou dizer porque. Já são quase 11 horas da manhã e não acordou nenhum filho de Deus pedindo para passear comigo. Já estou ficando vermelho de vontade de… você sabe, né, Charlote?! E também, domingo é o dia de visita à humana-vó. Ela conta os minutos para me ver. Só não sei por que ela não me oferece aqueles biscoitos maravilhosos que sempre estão sobre a mesa. Devem ser quitutes venenosos que a vovó jamais ousaria me dar.

– Amanhã, é segunda-feira, dia em que, mal nasce o sol, a humana-mor sai com aquele sapato que faz “pok, pok, pok”, correndo mais do que o normal, sem se despedir de mim, e só volta à noite.

– A terça-feira é o dia em que aquela outra humana-maluca e divertida vem. Ela põe as cadeiras para cima e a mesa para baixo. Tira tudo do lugar e atrapalha todo o meu trabalho, pois apaga o território que eu custei a demarcar. Além disso, tenho que ficar pegando a bolinha, que ela perde a todo momento.

– Na quarta-feira, é dia de estourarem bombas na rua. Acontece sempre ao anoitecer e o garoto-boy, depois de ficar olhando na TV um monte de humanos correndo atrás de uma bola, fica emburrado, na maioria das vezes, ou fica muito alegre. Humanos, né?!

– Na quinta-feira, vêm outros humanos para cá, sentam-se à mesa e ficam jogando uns pedaços de papeis que eles chamam de cartas. É uma barulhada! Coisa sem graça!!! Desagradável!!!  Sempre atrapalha minha soneca!

– Na sexta-feira, todos os celulares recebem mensagens avisando, com musiquinhas engraçadas, copos de cerveja e fotos de humanos alegres.

– O sábado é o dia em que eu levo minha humana-mor para passear. Coitadinha, ela espera por este passeio a semana toda. Não posso decepcioná-la. Quando ela calça o tênis, já fico preparado para conduzi-la de forma segura à praça, ao parque ou até mesmo uma voltinha rápida no quarteirão. O que não pode é faltar o rolé da pobrezinha.

– Charlote, às vezes, acontece de dar errado!

Por exemplo, certa vez,  eu sabia, com absoluta certeza que era terça-feira, dia em que a humana-maluca vem. Mas, o dia foi passando, nada de ela aparecer e os meus humanos não saíram da cama para me pedirem o passeio matutino. Pensei: São Pedro deve ter errado. São Pedro, segundo os humanos, é o santo que coordena o tempo.

Estava tudo muito estranho, pois meu povo armou uma árvore falsa no meio da sala, encheu de bolinhas que eu não podia pegar. Fiquei cabreiro com a situação. Estava sem controle!

– Charlote, depois entrou o humano-pai vestido com uma roupa vermelha, ridícula, falando ho, ho, ho! Achei que ele estava lelé da cuca. Não disse nada para não constranger. Além do que estavam todos felizes, reunidos em torno daquela árvore fake.  Tratei de ficar quieto. Mas, até hoje, não sei que dia foi aquele, esquisitão. Depois, tudo voltou ao normal, na quarta-feira, o humano-boy foi assistir sua TV. Na quinta-feira, as visitas chegaram, sentaram-se à mesa e foram brincar com as cartas deles. E a vida prosseguiu.

– Só sei Charlote que, se eu não vigiasse os dias, os humanos iam fazer tudo errado! Tenho que estar sempre alerta!

 

 

 

Histórias de família

Tia Lili é um anjo na terra. Ela é uma mistura de avó, mãe, amiga, tia, prima e tudo de bom que Deus nos dá para vivermos mais felizes aqui na terra.

Dizem que, quando a sua mãe, a Tatá, estava grávida, foi fazer o ultrassom para ver se estava tudo bem com o bebê. A vovó Tatá queria muito que fosse uma menina e nos exames anteriores não foi possível ver o sexo da criança.  Mas, naquele dia, Tatá, além de descobrir que esperava uma linda garota, durante o exame, a filhotinha deu tchau para sua mamãe, ficando registrado na tela o carinho e o amor que a criança já sentia pela mãe e por todos que estariam ao seu lado.

Quando acabou o exame, vovó Tatá, o pai da tia Lili e o médico estavam chorando. Todo mundo ficou muito emocionado com o carisma da criança ainda no ventre da mãe.

Até hoje, a tia Lili é muito especial. A casa dela é uma verdadeira colônia de férias. A primaiada se reúne em janeiro, julho e sempre que dá, para brincar, ir para a pracinha, tomar sorvete, fazer festa junina. Quanta gente aprendeu a andar de bicicleta nas férias nessas temporadas.

No quintal, a tia Lili fez uma casinha de boneca. Que delícia! A gente brincava o dia todo. E, também aprendíamos sobre negócios. Reuníamos os primos e fazíamos chupe-chupe, pulseiras, colares e anéis para vender. Quase ficamos ricos!

Até primos dos primos gostam de frequentar a casa da tia Lili, vindo gente de longe para desfrutar da companhia daquele pequeno ser de pura bondade.

No almoço, havia uns dez pratos de comida diferentes, pois cada um tinha uma preferência e tia Lili fazia questão de agradar a todos, cozinhando aquele banquete.

De vez em quando, lógico, saíam umas brigas, mas nada que a tia Lili não resolvesse num minuto, acabando com um abraço entre os litigantes.

Certa vez, a Layka, a cadelinha que morou com meus humanos antes de mim, resolveu engolir o Dr. Babá.

Foi uma briga feia! Estávamos brincando no quintal numa manhã de julho, enquanto tia Lili fazia o almoço. Conversávamos sobre os humanos, quando o Dr. Babá disse que pão de queijo é comida de humano e que os animais não deviam experimentar para não correrem o risco de ficarem como eles, sem um raciocínio equilibrado e estável.

Pra quê?

A Layka entendeu como uma crítica. Pior! Achou que o Dr. Babá estava proibindo que ela consumisse o quitute. Começaram a se desentender e a Layka partiu para o ataque. Claro que o Dr. Babá é menor que a cadela e, de imediato, foi parar direto na boca da cadela irada.

Não fosse o grito apavorado da tia Lili na janela! Layka, pára de babar. Quer dizer, não engula a babá. Quer dizer, solta o Dr. Babá!!!

Tia Lili estava tão assustada com a cena que não conseguia pronunciar corretamente a frase. Mas, por sorte, a fera conseguiu apenas arrancar algumas das penas do pássaro, que ficou emburrado pelo resto do dia.

Mas, a danada da Layka nem se alterou. Pouco depois, tia Lili chamou para almoçar. A gulosa foi lá comeu seu prato e também o do Dr. Babá que, naquele dia, não quis comer.

Hoje, rimos da história, inclusive o Dr. Babá que lembra com saudades da nossa querida Layka.

Viva a tia Lili!!!

 

 

Juca, o leitor

Eu adoro todos os meus amigos, mas o Juca é especial! Foi ele que me ensinou o gosto pela leitura.

Sua história, no começo, é triste, mas ele vira o jogo e se torna um cara extraordinário e muito feliz.

Juca nasceu em uma família pobre, o quarto de 12 irmãos.

Sua mãe vivia perambulando pelas ruas da cidade em busca de alimento para sua grande prole.

Mal o Juca conseguiu caminhar, já passou a ajudar na luta diária. Rodava pela cidade toda em busca de comida e abrigo para sua família.

Nas suas andanças, Juca descobriu o aterro sanitário, onde, dentre milhões de coisas, eram jogados muitos livros.

No começo, Juca pegava os livros, uns rasgados, outros mais ou menos, e ficava olhando as histórias. Aos poucos, ele foi juntando as letrinhas, depois as sílabas, até descobrir as palavras.

Num passe de mágica, Juca aprendeu sozinho a ler.

O céu era o limite, tudo que aparecia na sua frente, o esperto cão lia. Quando gostava muito, lia mais de uma vez. Se não gostasse, mesmo assim, ia até o final do livro para tentar extrair o que a história lhe podia oferecer de bom. E não é que ele conseguia. Sempre aprendia alguma coisa interessante.

A maior dificuldade era à noite pois onde ele e sua família moravam, num beco da cidade, não havia luz. Então, quando não era possível acender uma vela ou conseguir um lugar mais próximo do poste, sua diversão era impedida, o que deixava Juca muito triste.

Mas eu digo e repito: quem não acredita em fada madrinha, pode rever suas crenças. Elas existem!

Certa vez, uma humana e seu marido se propuseram a levar Juca para casa, mas o peludo não aceitou porque teria de deixar seus irmãos para trás. A moça não tinha lugar para todos em seu apartamento.

Então, a humana sugeriu que ele fosse morar na fazenda, aí ele poderia levar toda a família junto.

Lá foram eles para o campo.  Adaptaram-se bem com seus humanos e, de vez em quando, Juca vinha para a cidade com o casal de benfeitores.

Mas o problema com a luz à noite continuava. Não era sempre que havia claridade suficiente para sua leitura cotidiana.

Não é que a humana percebendo a situação, deixou propositalmente um aparelhinho destes modernos, o kindle, para que Juca pudesse ler na hora que quisesse. Era um tipo de tablet, com luz própria, onde os livros apareciam milagrosamente.

Bastava “baixar” a história desejada e se deliciar.

Juca não se conteve de alegria. Daquele dia em diante, não parou mais de ler.

Juca passou a ler para os irmãos, amigos e todo mundo que se interessasse. Foi aí que eu entrei para o mundo mágico dos livros.

Antes, como boa parte da garotada, achava que ler era chato, pois só haveria notícias ruins, coisas sem graça de saber. Mas o Juca, como bom amigo que sempre foi, me apresentou aos quadrinhos.

Ele lia para mim mangá, tio Patinhas, Turma da Mônica e vários outros.

Conheci grandes heróis como Pluto, Ri tin tin,  Lassie, Snoopy, Bidu, Floquinho, Scooby Doo e seu sobrinho Scooby Loo, Odie e vários outros.

Fiquei maravilhado com o universo escondido no papel!!!

Tanto que, num minutinho, aprendi a ler e também não parei mais.

Hoje, que já sou um adulto, vejo que também é necessário ler as coisas chatas e ruins porque só conhecendo os problemas temos chances de consertá-los.

Jamais esquecerei meu grande amigo e o precioso presente que ele me deu.

Juca não parou aí. Ensinou quem quis a ler e, mais ainda, o gosto pela leitura. Filhotes, idosos e todo mundo.

E quando a gente lê, a gente quer escrever. Não deu outra. Juca escondia um grande escritor! Ele conta histórias maravilhosas do interior do Estado, fala sobre coisas simples que moram em nossos corações.

Descreve a terra, seus milagres, descreve os produtores rurais, que, fazendo trabalho duro e invisível, traz para todos nós alimentos frescos e de qualidade todos os dias do ano.

Ele fala da água, do céu, do campo, da paz e dos humanos, esses seres incompreensíveis.

Com o conhecimento que ele tem, poderia ter sido astronauta, engenheiro, caminhoneiro, médico, advogado, lixeiro, cozinheiro, o que ele quisesse. Mas, sua escolha não teve erro. Ele quis ser escritor e, mais ainda, professor. Ele distribui a alegria de ler e aprender.

Ele provou a todos que as dificuldades da vida não podem ser reconhecidas como impedimentos e sim meros obstáculos. Somente quem luta pode superá-los.

Hoje, fazendo justiça ao seu esforço e dedicação, ele ocupa uma das cadeiras da Academia Canina de Letras – ACL.

 

Crie a fama e deite na cama

Mal chegou a linguaruda no prédio, sua fama correu longe. Até vizinhos de outro bairro já sabiam que havia se mudado para o condomínio uma tagarela desembestada.

E não era só fama, a dita-cuja falava pelos cotovelos. Dizia que a Charlote era muito metida à cantora, que o Romeu era um bobão de ficar com uma falsa soprano, que ele devia partir para outra.

Até no Guto, que toda espécime do gênero feminino adorava, ela “deitou a lenha”. Falou que ele era um caipira metido a galã. Disse que o Guto nem era tão bonito assim, que a cachorrada era cega por achar ele lindo. Chegou a repetir que o Guto era, no máximo, “um feio arrumadinho”.

Neste ponto, confesso que gostei de sua fala… kkkkkk

Sobre mim, pobrezinho, ela teve a coragem de dizer que sou medroso, baixinho e burraldo. Afirmou para a Charlote que eu “me achava”, mas, na verdade, não passava de um “pé rapado”.

Sujeitinha fingida! Perto de mim, é só elogios! Por trás, tanto faz…

Mas, nem tudo está perdido!

Tá certo, a fulana é cheia de defeitos, mas, noutro dia, demonstrou que tem um projeto de coração naquele peito! Estava ela na janela, espionando a vizinhança para editar seu noticiário falacioso, quando viu que um pardalzinho caiu de seu ninho.

A mamãe-pardal, como não tinha nenhum preparo, instrução, como nós animais de estimação, não socorreu sua prole. Ao contrário, foi embora, deixando o pobrezinho jogado à própria sorte.

Como todo mundo sabe, a cidade é um mar de perigos, principalmente para filhotes.

A Angélica, como estava com a anteninha ligada nos acontecimentos, viu a cena e não titubeou, foi logo ao encontro do pequeno órfão, que na verdade era uma órfã.

Não é que a danada acolheu a criança e a trouxe para sua casa, passando a assumir o papel da mãe desapegada.

Na mesma hora, deu o nome de Angelita à pequena e passou a cuidar dela como filha.

Buscava comida para dar no bico da passarinha. Limpava suas penas. Fez um ninho só para que a bichinha se aconchegasse. Chegou até a pedir à Charlote que cantasse uma canção de ninar para o bebê.

Veja, quem falava que a Charlote cantava muito mal. Vai entender…

A partir deste momento, passei a considerar mais a Angélica, pois vi que ela não é de todo mal. Claro, tem muitos defeitos. Falar da vida alheia, como ela faz, é imperdoável, mas talvez ainda haja salvação àquela alma, que acolheu a linda Angelita…

Acho que somos uma mistura de bem e do mal, cabe a nós dosar qual deles vai prevalecer em nossos corações.

Desta vez, a Angélica merece toda nossa admiração!

 

 

O roubo

Estava eu lá no ponto estratégico da casa.

Já falei deste lugar? É onde a gente tem que ficar para ver tudo na casa, a cozinha, os quartos, a sala e, principalmente, a porta de entrada.

Estou sempre alerta. Mas, certo dia, acontece quase nunca, dei uma cochiladinha por um breve instante. Rápida, coisa de 4 horas.

De repente, um solavanco. Acordei sobressaltado.

Um sujeito mal encarado tinha tropeçado em mim, não sei por que ele estava carregando a TV da casa.

Subitamente, a ficha caiu.

Era um ladrão!

Nunca havia acontecido.

Chegou finalmente a hora de eu mostrar minha valentia, minha força e minha perspicácia.

Quando eu ameacei dar o primeiro latido de força, o cara veio se aproximando com alguma coisa na mão. O cheiro não engana. Eram biscoitos…

Quem resiste a biscoitos?!!!

A humana-mor disse que só eu não resistiria a biscoitos e também a carne, arroz, chocolate e tudo mais, mas eu duvido. Biscoitos são biscoitos! E eu não sou de ferro!

Voltando à sequência dos fatos, não me contive e parti para cima do rapaz. Recebi saltitante os biscoitos oferecidos. Eram muitos e deliciosos!

Nisso, de rabo de olho, observava a movimentação. Computador, TV, micro-ondas, geladeira eram carregados pela casa.

Os humanos estavam de mudança? E nem me avisaram.

Mas, naquele momento, nada mais importante do que me deliciar com aqueles quitutes marrravilhooooosos!

Comi tanto que caí no sono de novo.

Tempo depois, despertei com o grito dos meus humanos! Levaram tudo!

Fred, seu come-dorme, você não viu os ladrões?

Meu Deus! O que eu faço agora?

Ao mesmo tempo, entra na casa o Tito, delegado do condomínio.

Pensei. Como me safar desta enrascada?!

Tito já adentrou à sala com algemas na mão para me prender.

Bradou:

– Sua missão é cuidar destes humanos. Por que você não agiu, não fez sua obrigação? Por que você não prendeu ou espantou os meliantes?

Você teve participação no crime? Confessa Fred!

Fiquei sem fala, não conseguia me explicar e fui levado para o xilindró.

Não havia opção, tive que ligar para o Guto, não sabia a quem recorrer…

Por sorte, Guto tinha um amigo advogado, Dr. Gilson Miranda, especialista em Direito Criminal.

Ao telefone, falou o Guto:

– Fred, liguei para o Dr. Gilson, ele disse que pode te tirar da cadeia, mas vai custar uma nota. Ele cobra honorários caríssimos.

– Fazer o que, né Guto?! O jeito é vender meu smartphone para pagar o advogado.

– Também, quem mandou você arrumar encrenca? Respondeu Guto.

Contratamos o Dr. Gilson.

No dia da audiência, estava o Fred no banco dos réus, acompanhado do Dr. Gilson.

O Juiz perguntou:

– Sr. Fred, por que o senhor não cumpriu sua missão e enxotou o ladrão da casa de seus humanos.

 Fiquei sem resposta, não poderia dizer a verdade, senão seria condenado.

Dr. Gilson é um ótimo advogado e apresentou a tese de legítima defesa.

Argumentou o procurador com o Juiz:

– Excelência, o meu cliente,  sr. Fred, não teve alternativa a não ser fingir que estava dormindo. No momento do roubo, eram muitos meliantes, armados, bandidos de alto índice de periculosidade. Se o sr. Fred reagisse seria morto instantaneamente.

Aquela já era a décima audiência que o juiz realizava no dia, sem almoço. Então, entrou o garçom na sala, trazendo sua refeição e disse ao Magistrado:

– Excelência, trouxe o frango que o senhor pediu.

Foi como se tocasse um canto de sereia, enfeitiçando o advogado de forma inexplicável.

Subitamente, o Dr. Gilson deu um pulo e gritou:

– Fraaaannnngooooo, alguém disse frango!!!

O cara partiu para cima do garçom, tomando de assalto a bandeja com a iguaria.

Pronto, lá se foi a defesa do Fred.

Dr. Gilson sentou-se na mesa do juiz e só saiu quando não restava mais nenhum um ossinho do prato que seria o almoço do magistrado.

Acabada a refeição, foram presos Fred e Dr. Gilson. Depois, foram encaminhados a um centro de reabilitação dos comedores compulsivos.

Mas como dizia aquele astro da TV, Garfield, mais vale um estômago cheio ainda que seja no xilindró!!!

 

 

 

Tito, o delegado

Tito sempre foi delegado de polícia e morou em cidade do interior. Muita gente acha que é mel na chupeta, mas só ele e Deus sabem das adversidades que o pobre já enfrentou.

Já colocou muito bandido perigoso na cadeia. Vocês lembram-se do Kid Malandro, famoso adulterador de coleira canina. Pois é! Foi o Tito, ou melhor, o Dr. Tito quem o prendeu.

Kid Malandro falsificava as coleiras de pobres animais indefesos, tomava seus lugares junto à família e, dentro da casa, roubava tudo dos humanos. Depois, ainda colocava a culpa na vítima, que antes era hipnotizada e não se lembrava de nada. Sem demora, o delegado Tito esclareceu toda a tramoia e prendeu o delinquente.

Contudo, hoje, Tito resolveu mudar-se para a capital. Ele estava cansado de ficar sozinho em sua casa no interior. Já está aposentado e queria aproveitar mais a vida urbana. Ir ao cinema, teatro, visitar museus, viajar, etc.  Ao escolher onde morar, optou por um prédio com área de lazer e veio residir em nosso condomínio.

No começo, o Tito apenas cuidava de seus humanos. Com o passar do tempo, depois de ter ido a dezenas de filmes, cinema, ter viajado a diversos lugares do mundo, não conseguia relaxar com a vida de aposentado e acabou aceitando o cargo de delegado do condomínio, uma espécie de síndico, mas com poderes mais amplos.

Na verdade, ele se sente a própria lei. Todo tipo de controvérsia, confusão, furdunço, bafafá que acontece, na mesma hora, eis quem surge, o Tito e resolve imediatamente o imbróglio, sem titubear.

Certa vez, estava tranquilo em casa, quando toca o telefone. Atendo e eram daqueles trotes em que a pessoa diz que está com seu parente sequestrado.

Trimm….

– Alô! Quem está falando?

– Alô! Você tem algum parente que anda de moto? Perguntou o bandido?

– Tenho, o meu primo Guto!

– Não chame a polícia! Estamos com seu primo Guto em nosso poder.

– Você terá que depositar 10.000 contos de cães (moeda canina) para soltarmos o rapaz com vida.

Na mesma hora, aquele capetinha que fica do lado da nossa orelha esquerda despertou e disse:

– Fred é a sua chance de se livrar do Guto!

Parece que o anjinho bom tinha saído, porque não ouvi ele dizer nada.

Então, indo pelo conselho do capetinha, respondi:

– Pode fazer o que vocês quiserem, eu não nem aí. E também não tenho 10.000 contos de cães. Se virem!!!

– Nisso, até o bandido ficou bravo. Seu desalmado, não vai salvar a vida do seu primo?

A conversa estava sendo ouvida pela linguaruda da Angélica que, na mesma hora gritou o Tito.

– Delegado Tito, socorro!!! O Guto foi sequestrado! Vão mata-lo.

Coincidentemente, Tito estava cochilando, coisa rara de acontecer. Levou um susto com o grito da fofoqueira, deu um pulo e quase bateu a cabeça no teto.

– Que foi Angélica? Você ainda vai me matar. Resmungou o policial.

– Delegado, o Guto foi levado por bandidos que exigem o resgate de 10.000 contos de cães.  Berrou a calopsita.

–  Como você soube disso Angélica? O Fred está negociando com os sequestradores pelo telefone.

Quando Tito e Angélica chegaram ao meu apartamento, os sequestradores já haviam baixado o valor para cem gramas de filé bem passado e meio biscoito.

Ainda assim, bravejou o Tito:

– Fred, não negocie com bandidos, deixe comigo!

E me tomou o telefone.

Depois de meia hora de negociação entre Tito e os delinquentes, o resgate havia subido novamente para 20.000 contos de cães. A discussão estava acalorada e delegado já estava com a pressão arterial alta e suando bicas de tanta raiva.

De repente, quem entra no apartamento?

O Guto, tranquilo e sereno.

Guto chama o Tito e a Angélica para saber o que estava acontecendo, mas eles nem notam a presença do galã.

Eu, a essa altura, já estava é fazendo a minha sesta, pois ninguém é de ferro.

Somente após 15 minutos, Tito e Angélica perceberam que o Guto estava ali observando os dois.

–  Guto meu rapaz, você está bem? Perguntou Tito e retornou às negociações.

Angélica se jogou para cima do Guto, parece que para aproveitar e dar umas beijocas no sujeito.

Num estalo, Tito percebeu o que estava fazendo e bateu o telefone na cara do criminoso.

O delegado notou que, na verdade, tratava-se de um trote e que o Guto nunca foi sequestrado.

Olhou para os lados e não sabia o que dizer. Virou para o Guto e disparou:

– Viu, espantei os bandidos. Eles te sequestram e você nem percebeu. Saiu ileso!

Angélica e eu acreditamos na história do Tito, que mantém até hoje sua pose de intocável e o Guto não quis queimar seu filme, deixou  como estava, todo mundo acreditando que o Tito é o melhor delegado do mundo…

O que vale é que o condomínio mantém a ordem e a paz, graças ao Tito.

 

 

 

 

Cherry

Como todo mundo sabe, eu sou muito conhecido e também conheço muita gente.

Por isso, tenho muito caso para contar. Mas hoje vou falar de alguém muito especial.

Ela é liiiiiinnnnnnddddaa!

Na verdade, foi eleita miss universo.

Sua beleza é única, extraordinária, fenomenal!

Seu charme arrasa corações, inclusive o meu.

Sua voz é delicada como a bruma da manhã.

Seu pelo é macio e branco como a neve. Se bem que eu nunca vi neve…

Seu jeito de andar é mais delicado do que o de um felino, sempre de salto alto.

Seu olhar é arrasador!

Estou falando da minha prima Cherry!

Eu sei que o Guto baba por ela, mas ela gosta mesmo é de mim.

Sei que, quando eu chego perto, ela sempre está com pressa, tem outro compromisso, vai para outro lugar. Mas, eu tenho certeza, ela é doidinha por mim!

Vou falar um pouco dela para vocês conhecerem um anjo na terra.

Ela adora ouvir música clássica, apesar de ter pedido um CD do Guto. Adora fazer ginástica, ela tem que manter a forma e sua comida favorita é, ninguém vai acreditar, alface. Argh…

No seu aniversário, pensei em comprar um presente para ela. Eu, com meu gosto refinado, com certeza escolheria o melhor presente que ela pudesse sonhar, não teria erro.

Comprei um quilo de bacon e biscoitos, claro! Tá certo que os biscoitos eu comi no caminho até a casa dela e também dei uma mordidinha no bacon, mas fiz tudo de coração.

Chegando na casa da Cherry, toquei a campainha, veio um de seus humanos para atender. Na verdade, ela toma conta de cinco humanos e apenas um é homem. Ela acha os homens muito complicados, quando foi escolher, não quis complicar sua vida.

Mas, voltando à minha visita. O humano atendeu e me mandou entrar e esperar. Fiquei três horas esperando a beldade. Disseram que ela estava fazendo as unhas. Quase não sobra nada do presente de aniversário, tive que segurar a onda para não comer todo o bacon que restou.

De repente, desponta aquela deusa grega na sala, eu perco a fala, fico sem ação e começo a caminhar em sua direção. Ela caminha em direção oposta. Eu volto, ela volta também.  Fica aquela brincadeira de pega-pega. Ela é muito brincalhona!

Com muito custo conseguir me aproximar para entregar o bacon. Ela agradeceu, ela é muitíssimo educada, contudo, sem muito entusiasmo. Devia estar cansada!

Nesse instante, toca a campainha de novo e, ao mesmo tempo, surge um aroma no ar.

Cherry sente o perfume e corre para abrir a porta. Quem era? O Guto, ele mesmo, com um buquê de alface nas mãos.

Cherry pulou no seu pescoço e deu-lhe um abraço e milhões de beijos. Recebeu o presente como se fosse um brinde do céu.

Não me contive e parti para cima do Guto.

– Sujeitinho impertinente, insolente, atrevido, enjoado, aborrecido! Vou acabar com você!

Levei uma surra que até hoje me lembro dos socos em minha barriguinha.

Naquele dia, não sei o que aconteceu, pois o safado do Guto só quebrou uma unha. O normal é eu acabar com ele.

E, pior de tudo, adivinha de quem a Cherry cuidou?

É! Tive que ir para a clínica veterinária com o humano-mor, o único que podia me levar.  Não sei por que as humaninhas estavam com medo de me levar. Falaram que eu era bravo e doido! Pensa!!! Eu, um cavalheiro!

E ainda tive que pagar uma conta enorme dos medicamentos!

Eta vida!

 

 

 

Angélica, a calopsita.

Na região da Savassi, em Belo Horizonte, existe o Centro de Estudos de Pássaros. Lá, vivem calopsitas e periquitos que estudam a vida humana. 

O propósito é desvendar os costumes, a capacidade cognitiva e a bondade dos homens.

Dividir o mesmo espaço urbano com o homo sapiens foi a forma que os pássaros arrumaram para alcançar seu objetivo.

Conviver com humanos, observando, analisando e, até mesmo, experimentando seu jeito de lidar com as adversidades.

Dividem o mesmo ambiente. Claro, os humanos são cercados por paredes e portas trancadas, pois ainda não aprenderam a respeitar o espaço do próximo. Mas, os pássaros não. Eles vivem soltos pela casa para interagirem melhor entre si e também com os humanos. 

O projeto iniciou-se em 2003, pela professora, mestre e doutora em antropologia, Dra. Pérola, que dirige o Centro de Pesquisas. Em seguida, chegou o Dr. Babá, sério estudioso da raça humana. Seu maior desafio é descobrir o que leva o homem a condenar os pássaros à prisão perpétua, sem terem cometido crime algum.

É um grande desafio, pois, segundo o relato do cientista, a cada momento, o homem apresenta uma justificativa mais incompreensível que a outra. Ora é porque os pássaros cantam, ora é porque são bonitos, ora é porque são raros. Vê se pode?!!!

Segundo esses estudiosos, nunca foi preso um pássaro por ser criminoso e sim porque apresenta uma qualidade, é bom, é bonito, é forte ou é raro. 

Seres esquisitos este tal de homem, né?

Mas a vida é boa! Comida farta, amor e carinho dos humanos que lá também habitam.

Tudo corria bem. Dra. Pérola sempre em dia com os trabalhos e séria em suas atribuições, até quando, numa bela manhã, chegou a estagiária Angélica. 

A bichinha era totalmente desvairada! Sem noção.  

Vivia roubando comida dos humanos. Quando recusavam seu pedido, ela partia para cima do desavisado, sem dó, nem piedade… Bicando até sua língua.

Com relação ao trabalho, era o que se chama “nó cego”. Não queria saber de nada. Nenhuma das atividades que lhe foram passadas, foram cumpridas.

Relatórios, questionários, experimentos. Nada era do seu interesse. Só queria saber mesmo de fofocar. A Angélica era pássaro, mas tinha língua de réptil, gigante…

Tanto fez até provocar uma discussão entre a Dra. Pérola e o Dr. Babá, chegando a ponto de um não conversar com o outro.

A Angélica teve o desplante de falar com a Dra. Pérola que o Dr. Babá falou que ele era o mais trabalhador do Instituto, que a Dra. Pérola só ficava ali para desfilar para lá e para cá…

Pura mentira! Na minha vida de cachorro, jamais vi uma passarinha tão dedicada ao trabalho e aos estudos como a Dra. Pérola. Fofoca da brava!

Os dois pássaros, inteligentes e perspicazes, como são, logo perceberam que a faladeira da Angélica estava ali somente para por fogo no circo, sem colaborar com nada.

Resultado. A Angélica foi para o olho da rua.

A minha humana-mor, que era irmã da humana-mor do Centro de Pesquisa, comoveu-se com a situação da coitada.

Para os humanos, os pássaros não combinavam entre si e estavam depenando uns aos outros.

Então, ela sugeriu que a penosa viesse para o condomínio, para morar no apartamento 202.

Eu fiquei encucado, pois a Dra. Pérola já havia me falado dos problemas que estava enfrentando com a presença da futriqueira no Centro de Estudos, mas…

Chegou a fuxiqueira!

A primeira coisa que ela fez foi reclamar dos vizinhos, dizendo:

– O prédio é bom, mas tem muito cachorro, gatos e poucos pássaros! Ainda bem que eu cheguei para colocar ordem neste pardieiro!

– Vixi!!! Já senti o drama! Vai dar ruim! Pensei eu com meus carrapatinhos…

 

Layka

Todo mundo já perdeu alguém.

Dizem que a perda é a parte ruim de amar o próximo.

Graças a Deus, eu nunca passei por isso. Mas meus humanos ainda sentem falta da cadelinha que cuidou deles antes de mim.

Contam que ela era uma peça, aprontava mais do que eu.

Isso é fácil, pois, como já disse, sou um verdadeiro nobre cavalheiro, um lorde, jamais descerei do meu patamar de superioridade.

Mas a garotinha já me contou que a Laykinha não era flor que se cheirasse.

Além disso, ela era muito gulosa e comia tudo que via pela frente: sapatos, pé de mesa, paredes e chinelos. Ela mais parecia um roedor do que uma canina.

Assim como eu sou louco por biscoitos. Adoro biscoitos!!! A Layka era vidrada num pão de queijo, fazia qualquer negócio para conseguir sua guloseima predileta.

Certa vez, o humano boy estava recebendo a visita de um amigo. Enquanto os dois estavam no sofá assistindo à TV, a humana mor preparou pães de queijo para eles.

Tudo corria na santa paz, a Layka, como sempre, afável e comportada na presença do visitante.

Só que a desaforada da mãe do menino não ofereceu a quitanda à pobre da Laykinha que poderia, até mesmo, vender sua alma para conseguir um “tequinho” daquele manjar dos Deuses.

Não é que, quando a egoísta deixou o prato cheio de pães de queijo com os garotos, a cadelinha, num ataque de fúria, já ficando verde, quase virando o Hulk, não se aguentou. Partiu para cima dos meninos, subiu no sofá, derrubou os copos que eles seguravam e avançou na visita para roubar o prato valioso que estava em suas mãos.

Imagine a cena! A Layka rendendo os dois meninos para afanar os pães de queijo. Enquanto o intruso não entregou o tesouro à destemida cadelinha, a  casa esteve sob o seu comando, que ferozmente, em cima do sofá, dava botes no menino desavisado.

Final da história. A gulosa comeu todos os pães de queijo, a visita foi embora apavorada de medo, e a humana mor ficou muito furiosa.

Também, quem mandou não repartir o pão com o irmão, né?!

Bem feito! Esses humanos merecem uma lição!

 

 

 

O Poderoso Carlão

Ah, como é bom tirar uma sonequinha no meio da manhã, pensava eu inocentemente.

De repente, senti o perigo aproximando-se, o cheiro no ar não deixava dúvidas…

Au, au, au, auuuuu…. au, au… Lati sem parar…

– Fred, por que você está latindo tanto? Deixa de ser chato, disse a humana mor, chefe do grupo.

Esses humanos, não têm percepção da ameaça que se avizinha…

“Din don”… Tocou a campainha.

– Oi! Carlos, tudo bem com você?

– Tudo bem! A senhora quer fazer a limpeza dos vidros? Respondeu o sujeito.

– Esta casa está em apuros, ninguém menos que o Poderoso Carlão, com suas armas mortíferas, está invadindo nosso lar, preciso agir. Pensei, astuciosamente..

– Este Carlos acha que eu acredito na sua conversa mole, falando que é vassoura e rodo que ele carrega. Conta outra Mané! Sei de tudo, das intenções dele de dominar o prédio, é meu dever proteger todos…

– Vou ficar esperando, no primeiro descuido, eu vou atacar.

– Então tá?! Na quarta-feira, volto para faxinar as janelas. Obrigado! Falou o enxerido.

A minha estratégia era a seguinte: Quando Carlos, o zelador do condomínio estiver se aproximando do elevador, eu saio em disparada e acabo com ele, aquele mequetrefe!!!

Ao por em prática o meu plano magnífico, esperei até o Carlão chegar à porta do elevador e fui com tudo, dei-lhe uma dentada no calcanhar.

Au, ai, au, au, ai…

O plano não deu certo, quando mordi o pé do patife, quebrei dois dentinhos. Ai, como dói…

Não sabia que o Carlão usava botas superpoderosas…