Estava eu lá, tirando minha sonequinha, para variar, quando ouço chamar meu nome.

Uma voz doce, suave e carinhosa…

– Freeeeed!

Era a bela Charlote, a gata mais gata do condomínio!

Quando cheguei à janela, lá estava a maravilhosa, estilosa e deslumbrante. Mas, também, estava o chato do Romeu que não larga do pé dela.

– Fred, disse a felina, no sábado, haverá outro festival de música, tenho que fazer a inscrição, você sabe que dia é hoje?

– Oh Charlote, hoje é domingo.

– Como você sabe, Fred? Você está sem celular, sem relógio, sem calendário.

– Charlote, nós cães, como seres de maior inteligência entre as espécies, temos a percepção do tempo como ninguém. Por exemplo, hoje é domingo. E vou dizer porque. Já são quase 11 horas da manhã e não acordou nenhum filho de Deus pedindo para passear comigo. Já estou ficando vermelho de vontade de… você sabe, né, Charlote?! E também, domingo é o dia de visita à humana-vó. Ela conta os minutos para me ver. Só não sei por que ela não me oferece aqueles biscoitos maravilhosos que sempre estão sobre a mesa. Devem ser quitutes venenosos que a vovó jamais ousaria me dar.

– Amanhã, é segunda-feira, dia em que, mal nasce o sol, a humana-mor sai com aquele sapato que faz “pok, pok, pok”, correndo mais do que o normal, sem se despedir de mim, e só volta à noite.

– A terça-feira é o dia em que aquela outra humana-maluca e divertida vem. Ela põe as cadeiras para cima e a mesa para baixo. Tira tudo do lugar e atrapalha todo o meu trabalho, pois apaga o território que eu custei a demarcar. Além disso, tenho que ficar pegando a bolinha, que ela perde a todo momento.

– Na quarta-feira, é dia de estourarem bombas na rua. Acontece sempre ao anoitecer e o garoto-boy, depois de ficar olhando na TV um monte de humanos correndo atrás de uma bola, fica emburrado, na maioria das vezes, ou fica muito alegre. Humanos, né?!

– Na quinta-feira, vêm outros humanos para cá, sentam-se à mesa e ficam jogando uns pedaços de papeis que eles chamam de cartas. É uma barulhada! Coisa sem graça!!! Desagradável!!!  Sempre atrapalha minha soneca!

– Na sexta-feira, todos os celulares recebem mensagens avisando, com musiquinhas engraçadas, copos de cerveja e fotos de humanos alegres.

– O sábado é o dia em que eu levo minha humana-mor para passear. Coitadinha, ela espera por este passeio a semana toda. Não posso decepcioná-la. Quando ela calça o tênis, já fico preparado para conduzi-la de forma segura à praça, ao parque ou até mesmo uma voltinha rápida no quarteirão. O que não pode é faltar o rolé da pobrezinha.

– Charlote, às vezes, acontece de dar errado!

Por exemplo, certa vez,  eu sabia, com absoluta certeza que era terça-feira, dia em que a humana-maluca vem. Mas, o dia foi passando, nada de ela aparecer e os meus humanos não saíram da cama para me pedirem o passeio matutino. Pensei: São Pedro deve ter errado. São Pedro, segundo os humanos, é o santo que coordena o tempo.

Estava tudo muito estranho, pois meu povo armou uma árvore falsa no meio da sala, encheu de bolinhas que eu não podia pegar. Fiquei cabreiro com a situação. Estava sem controle!

– Charlote, depois entrou o humano-pai vestido com uma roupa vermelha, ridícula, falando ho, ho, ho! Achei que ele estava lelé da cuca. Não disse nada para não constranger. Além do que estavam todos felizes, reunidos em torno daquela árvore fake.  Tratei de ficar quieto. Mas, até hoje, não sei que dia foi aquele, esquisitão. Depois, tudo voltou ao normal, na quarta-feira, o humano-boy foi assistir sua TV. Na quinta-feira, as visitas chegaram, sentaram-se à mesa e foram brincar com as cartas deles. E a vida prosseguiu.

– Só sei Charlote que, se eu não vigiasse os dias, os humanos iam fazer tudo errado! Tenho que estar sempre alerta!

 

 

 

Fred
                                 

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